#PrayforPalestina (Reze Pela Palestina) chegou a ser o termo mais compartilhado no Twitter brasileiro, entre quarta e quinta-feira, e tem figurado entre os dez principais temas discutidos por brasileiros no microblog.

Nas últimas 24 horas, de acordo com o serviço Sysomos, a hashtag já foi mencionada mais de 949 mil vezes. Entre os dez tópicos que mais circularam na versão nacional do Twitter na quarta e na quinta estiveram ainda, em diferentes momentos, “Israel” e “Palestina”.

O interesse pelo tema coincidiu com a mais recente incursão israelense ao território palestino de Gaza, que começou na terça-feira e já matou pelo menos 100 pessoas, segundo a Embaixada da Palestina em Brasilia.

No mesmo dia, o Brasil assistia à derrocada da seleção brasileira diante da Alemanha pelo arrasador placar de 7 a 1.

Passado o choque inicial – e a enxurrada de comentários críticos e piadas sobre a absurda goleada – o interesse dos internautas brasileiros pelo torneio foi caindo.

Assim, o futebol também começou a sair do primeiro plano, ao menos no que diz respeito aos temas dominantes do Twitter.

Na quarta-feira pela manhã, entre 8h e 9h (horário de Brasília), #PrayforPalestine chegou ao primeiro lugar dos trending topics brasileiros.

‘Horrorizado’

O estudante de ensino médio Lucas, de 16 anos, teve contato pela primeira vez com o conflito entre israelenses e palestinos após a hashtag se espalhar pelo Twitter brasileiro.

“Eu vi algumas imagens e comentários sobre o assunto mas não tinha entrado na discussão por não entender o que estava acontecendo”, diz. “Hoje eu acordei e fiz uma pesquisa. Fiquei horrorizado”.

Na rede social, ele postou uma foto de uma criança supostamente palestina junto à seguinte frase: “Vou contar tudo para Deus… essas foram as últimas palavras dessa criança palestina”.

O #salasocial perguntou se o jovem conhecia a procedência da imagem e se estava preocupado com a veracidade das informações compartilhadas na rede.

“Eu procurei em alguns sites e não consegui encontrar provas de que as fotos são atuais”, respondeu. “Mesmo que não sejam, acho que elas servem para mostrar o que acontece naquela região há tanto tempo.”

Credibilidade

A falta de verificação nos compartilhamentos foi criticada por muitos usuários da rede. O comerciante Evaristo Neto, 36, de Belo Horizonte, foi um deles.

“A repercussão aqui é tendenciosa. Não que os israelenses sejam santos, mas colocam os palestinos como vítimas e acho que também não é por aí”, disse.

Segundo Neto, o Twitter é uma “faca de dois gumes”.

“Uma garota compartilhou uma foto que sequer é do conflito. Se parassem ao menos para pesquisar a história. O problema é que usam o Google e as informações muitas vezes são parciais”, critica.

A filósofa Lisiane Pohlmann, de 24 anos, também entrou na discussão pela rede social. Ela concorda que existe o perigo de compartilhamentos equivocados, mas vê a repercussão como algo “válido”.

“O tema ter visibilidade é sempre muito positivo, ainda que na dinâmica do ‘telefone sem fio’, como são espalhadas as notícias”, disse à BBC Brasil. “A violência é uma palavra recorrente nos nossos discursos e tem que ser pensada, ainda que sob os holofotes das frases e notícias de impacto”.

Para a estudante de Letras Jully, de 18 anos, o mais chocante são as imagens compartilhadas.

“Foi através dos tweets que eu vi que crianças estavam sendo assassinadas. A repercussão no Twitter é necessária para abrir a mente das pessoas. Quem sabe assim os jornais comecem a dar ênfase ao caso?”.

Popularidade

Um total de 61,3% das menções ao tema vieram da Indonésia, o país de maior população muçulmana do mundo. A causa palestina é um tema que costuma unir nações islâmicas de diferentes partes do mundo e com distintos estilos de governo.

O Brasil aparece em terceiro na lista, com 8,1% das menções à hashtag. Em apenas um dia, ela já foi tuitada por mais de 387 mil internautas, de acordo com o site de análises de dados de redes sociais Topsy.

Em termos de popularidade, ela ultrapassa hashtags populares no próprio Oriente Médio (escritas em árabe) sobre o conflito, como “Gaza Sob Ataque”, que foi tuitada 312,5 mil vezes e “Pedimos a nosso rei que ordene ataques contra Israel”, que rendeu 72 mil tuítes em um dia – vindos, predominantemente, da Arábia Saudita.

As redes sociais vêm se tornando uma plataforma importante para a causa palestina.

No ano passado, uma campanha gerada por ativistas palestinos nas redes sociais acabou levando a atriz Scarlett Johansson a perder seu posto de embaixadora da ONG Oxfam, após ela ter feito uma série de anúncios para a empresa israelense Sodastream, que tem uma fábrica nos territórios palestinos ocupados por Israel.

Nos recentes episódios que levaram à mais recente escalada no conflito do Oriente Médio, as redes sociais teriam contribuído para a incitação de ódio tanto por parte de israelenses como de palestinos.

Segundo o governo de Israel, palestinos teriam postado fotos em suas contas de Facebook em que apareciam fazendo o número três com os dedos, em uma suposta referência ao sequestro e assassinato de três jovens israelenses – tido como o estopim dos ataques que acontecem agora.

Em muitas das mensagens tuitadas por brasileiros junto às hashtags populares são vistas imagens brutais de crianças mortas e ensanguentadas, que estão circulando no Oriente Médio, e que teriam sido supostamente registradas nos territórios palestinos durante a mais recente incursão israelense.

Agradecimento

O #salasocial procurou as embaixadas de Israel e da Palestina para comentar o crescimento da discussão nas redes sociais.

Ibrahim Alzeben, embaixador palestino em Brasília, conversou com a reportagem por telefone. “É algo caracteristico do povo brasileiro, que quer ver reinar a paz e ver os povos competindo apenas nos campos de futebol. Elogiamos e agradecemos esta posição. Vocês são um povo nobre que é sensível à dor de outros”, disse.

O embaixador classificou o conflito como um “genocídio”.

“O que esta acontecendo é um genocídio. Israel está usando toda a sua maquinária de guerra contra um povo desarmado e que está cercado por terra, mar e ar.”

Procurados por telefone e e-mail, a embaixada e o consulado de Israel em São Paulo não responderam aos pedidos de entrevistas.

Fonte: BBC Brasil

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