Muitas vezes, o jornalismo trabalha temas sensíveis de maneira concreta e racional. Traduzir relatos em reportagens tradicionais, utilizando os questionamentos Quem? Quando? Onde? e Como? é a forma mais fácil e dinâmica para informar de maneira simples. No entanto, essa estrutura – normatizada e padronizada, geralmente não mostra a essência, não retrata o momento, a simplicidade da ação e a sensibilidade de quem a viveu. Dessa forma, fui responsável por escrever aqui, nesse pequeno relato, como foi o Seminário Internacional Mulheres, Fome, Pobreza, Exploração e Tráfico Humano, realizado entre os dias 15 e 17 de outubro, em Brasília; entretanto, não conseguiria expor a grandeza do que foi vivido. Trago, então, um pequeno depoimento – breve e significante –, de quem conviveu com a experiência tão rica da troca de experiência com mulheres que lutam e trabalham para serem protagonistas.

“Difícil traduzir em palavras momentos que foram sentidos, cheirados, vistos e vividos. Mas tentarei.

Tudo foi iniciado com a bela mística inicial, que trazia uma releitura do trecho bíblico do êxodo, do momento no qual Moisés é colocado no rio – destacando o papel das mulheres para mudar a história da humanidade. A partir disso, contamos histórias de mulheres militantes e lutadoras do povo.

Quando abordamos a religiosidade, vimos elementos de como a mulher está conquistando espaços de liderança nas instituições religiosas, rompendo o caráter de, apenas, auxiliar nas tarefas. Ouvimos relatos que, com certeza, alegraram nossa caminhada.

Junto com representantes da Cáritas de todo Brasil – e também de outros países como Espanha, Costa Rica, França e Argentina –, bem como com movimentos sociais e populares, debatemos sobre o grande problema mundial que é o tráfico de mulheres; tanto pelo ponto de vista daqueles que trabalham com as vítimas, como é o nosso caso, no Brasil; tanto pela visão de quem convive com as mulheres traficadas, verificando constantemente a situação de vulnerabilidade em que vivem, como alguns países da Europa.

Até mesmo a questão do vocabulário ligado ao gênero feminino foi debatida, tendo em vista o preconceito verbal que sofremos todos os dias, em meio a uma sociedade ainda machista e patriarcal. As mudanças ocorrem, mas estamos cientes de que ainda há muito por fazer, até mesmo em pequenos detalhes como esse. Não podemos ficar caladas, temos que ser protagonistas. Por isso, todas nós, mulheres – quilombolas, negras, campesinas, agricultoras, indígenas, pescadoras, mulheres prostituídas, ribeirinhas, ciganas, juventudes e educadoras , escrevemos uma carta e enviamos à Presidência da República, mostrando nossos anseios, lutas, comprometimentos e exigências na questão dos Direitos Humanos. (Carta à Presidência da República declarada no Seminário Internacional de Mulheres: http://caritas.org.br/leia-a-carta-a-presidenta-da-republica-declarada-no-seminario-internacional-mulheres/27230)

Voltei deste encontro mais mulher! Mais mulher na minha individualidade! Mulher pescadora, mulher camponesa, mulher encarcerada, mulher traficada, mulher, mulher!”

Tailaine Cristina Costa, mulher, coordenadora do CRDH Dom Helder Câmara Cáritas Paraná, representou o CRDH e também todas as mulheres que nele trabalham na busca pela concretização dos Direitos Humanos.

*Relato estruturado por Rafaela Bez, estudante de Jornalismo e voluntária de Comunicação da Cáritas Paraná e do CRDH Dom Helder Câmara.

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