Foto: Joka Madruga

 Aceita-se, desde Weber, que o Estado seja o justo detentor do uso legítimo da força em situações em que o restabelecimento da ordem, seja ela qual for, seja necessário. Em contrapartida, sabe-se também que a força usada indiscriminadamente é a antítese da racionalidade. Numa hierarquia militarizada – como a da polícia brasileira – não há espaço para que a racionalidade do cidadão comum emerja como resposta aos excessos de seus superiores. Foi Beto Richa que disse não ser interessante que policiais tivessem curso superior. Há o risco de se tornarem insubordinados, portanto questionadores – e que líder político afeiçoado ao poder gosta de ser questionado?

Portanto, não é de surpreender que os acontecimentos que obnubilaram a atmosfera da Praça Nossa Senhora de Salete em 29 de abril tenham em sua fonte alguma natureza repressiva. Mas, diferente daquela vista nas capas do jornais e nos vídeos que circularam na internet a partir do dia seguinte, a supressão da subjetividade dos atores envolvidos seja, talvez, a pior agressão estatal em ação constante no Brasil.

O que difere professores de policiais nos acontecimentos vividos no Centro Cívico é o lado que ocupam nas manchetes. Enquanto uns têm seus direitos subtraídos, outros garantem que essa operação seja realizada com êxito, respaldados por uma estrutura em cuja ponta está a figura do governador. Há algo, porém, que os une: seja do lado da caça ou do caçador, não há lugar – a bem da verdade, nem estímulo – para a atuação plena do sujeito enquanto ser pensante e desejante.

Enquanto os professores, apoiados por uma parcela importante da sociedade, tentam fazer com que suas demandas sejam consideradas pela classe política, policiais sem o livre exercício de seu pensamento crítico agem como autômatos a repetir mecanicamente aquilo para que foram treinados. Correu o rumor de que alguns poucos que se recusaram a agir conforme o ordenado seriam exonerados de seus cargos. A informação, desmentida pelo governo, importa apenas na medida em que o contingente desses supostos desviantes se aproxima de uma quantia irrisória, variando até um máximo de cinquenta nos relatos menos modestos.

De qualquer forma, está claro para todos que os professores não são ameaças à segurança nacional. Já a estrutura da qual faz parte a polícia militar, ultrapassada em seus valores, encabeça a lista de organismos públicos parados no tempo, como se ainda habitasse um eterno 1985. A liberdade, uma noção cara a todos que fazem uso do discurso público, termina por ser apenas uma ferramenta de retórica sem validade prática. O caminho para a emancipação de conceitos como justiça e equidade passa obrigatoriamente pela formação cívica, por sua vez impossível enquanto se submeter aos caprichos de partidos e uns poucos indivíduos.

Os comportamentos de grupo, como o testemunhado no conflito, tendem a seguir uma coesão que, para o bem ou para o mal, conferem a ele seu senso de unidade ao mesmo tempo que alteram a percepção individual dos fenômenos. Essa situação se tornou clara em um célebre experimento de psicologia social realizado por Stanley Milgram em 1961, na Universidade de Yale.

Na experiência, voluntários eram colocados no comando de um dispositivo que, quando acionado, enviava ondas de choque para o corpo de uma pessoa na sala ao lado. Um pesquisador lhes solicitava que fizessem uma série de perguntas aos que estavam ligados aos eletrodos e que lhes dessem um choque a cada resposta errada. Conforme progredia o teste a intensidade das punições era aumentada enquanto ouviam-se gritos dolorosos de quem as recebia. Milgram não contava aos participantes, no entanto, que aqueles que recebiam as descargas elétricas não estavam realmente ligados a nenhum disposito. Eram apenas atores fingindo ser eletrocutados. Ele queria investigar o senso de obediência às autoridades em situações claramente questionáveis do ponto de vista ético.

A certa altura o ator implorava por ajuda e dizia não aguentar mais. O pesquisador, então, informava ao voluntário que continuasse mesmo assim e que a universidade arcaria com quaiquer consequências que o estudo acarretasse. Apenas essa afirmação foi o suficiente para que até 65% das pessoas continuassse aplicando choques em desconhecidos, apesar dos riscos e do sofrimento – sem questionar, sem colocar-se no lugar do outro, apenas por que lhes foi pedido.

Se apenas a aparente autoridade de um pesquisador é suficiente para inibir a capacidade de empatia de um bom número de pessoas, o que se dirá de autoridades verdadeiras como Beto Richa ou o ex-secretário de Segurança do Paraná, Fernando Francischini em relação à população?

A polícia, portanto, tem a sua culpa, mas o problema não está em quem ordenou os ataques contra os trabalhadores e manifestantes. Está, entre outras coisas, na postura acrítica com que conduzimos nossas relações, sejam elas entre indivíduos, entre sujeitos ou entre instituições.

Somente dando lugar e condições para a vivência plena do sujeito e de suas liberdades de pensar e agir criticamente, em conformidade com os pressupostos de uma sociedade republicana e democrática, é que se constituirá uma sociedade não condizente com o massacre de professores ou escândalos políticos diários. O povo também tem os seus recursos, aos quais pode recorrer: o direito à livre manifestação, a articulação política da sociedade civil, o envolvimento em movimentos, as audiências e debates públicos, a participação em conselhos, entre outros. Ao lado de todos eles estará sempre a possibilidade de a cada quatro anos repensar, por meio do voto consciente, os representantes da população ferida em seus direitos fundamentais. 

Douglas Marques

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