Por Mariana Malheiros, agente Cáritas.

Fotos: Arquivo pessoal

 Ando muito por estas imensas terras da Mátria Grande, Abya Ayala, Pindorama, Araucanía fecunda. Durante o ano percorro milhares e milhares de quilômetros nesta terra das muitas  cores, atolando na lama ou tossindo poeira. Os meus olhos e os meus ouvidos estão grávidos dos muitos rostos que encontrei e das muitas histórias que ouvi. (…). Acredito que minha vida  seja encontro, desencontro e, às vezes, reencontro de corpos e histórias” (Maria Soave Buscemi).

  Muitos foram os caminhos percorridos na Mátria Grande até a chegada em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, para El Encuentro Mundial de Movimientos Populares entre os dias 07 e  09  de julho, neste ano. Entre encontros e reencontros, ao som das canções que marcam a terra das araucárias, seguimos estrada afora, atravessando fronteiras, desconstruindo barreiras,  recebendo tudo o que existe nos caminhos do nosso continente marcado por sangue e suor.

 Em Santa Cruz, novos encontros: bolivianos, argentinos, paraguaios, uruguaios, peruanos, cubanos, palestinos, brasileiros de todos os cantos deste país continental.

 “Pelos caminhos da América, bandeiras de um novo tempo vão semeando no vento frases teimosas de paz”, como canta o querido Zé Vicente. E quantas bandeiras de paz que não acomoda  foram partilhadas no solo da Pachamama! Partilhar por dois dias tantas histórias com tanta gente de sonhos e lutas trouxe a certeza que a luta se faz vitória, através da resistência de tantas pessoas com fome e sede de justiça. O mate argentino partilhado com as campesinas argentinas; o samba cantado com os uruguaios que tanto queriam escutar las canciones brasileñas; as conversas com as peruanas que resgatam a memória das mulheres que lutam e resistem: “todas somos Micaela”; os diálogos com os jovens e as mulheres da Bolívia – el feminismo comunitário – que constroem o seu próprio espaço na luta por autonomia, dignidade e liberdade; tantas conversas, partilhas, lágrimas e sorrisos com sotaque castelhano – e brasileiro. Foi possível perceber que nossa capacidade humana para criar um mundo baseado na liberdade, na justiça e na democracia é maior, muito maior, do que podemos imaginar. Há algo que nenhum senhor que pensa ser dono do mundo pode impedir: nossa capacidade de acolher toda a criação, com suas formas e rostos, sem se importar com os rótulos criados pelos poderosos. “El mundo que queremos es uno donde quepan muchos mundos”, como falavam os zapatistas[1]. E isto foi reafirmado através de muitos gestos e palavras.

Após dois dias de intensos debates e com uma conclusão em comum, fomos para mais um encontro. O aguardado momento em que Evo Morales e o Papa Francisco, dois dos principais líderes da humanidade, escutariam nossas reivindicações, fruto de uma construção comunitária, construída a partir das histórias e vivências de cada pessoa presente. Eu carregava todas as lutas e histórias vividas ao longo de minha vida, seja no aspecto pessoal, trabalho pastoral, nos movimentos sociais, na Cáritas: luta de trabalhadoras e trabalhadores por melhores condições de trabalho; luta do povo nordestino sertanejo que, sem água e sem trabalho, deixa sua terra chorando em busca de melhores condições de vida; luta pela Soberania do Estado Brasileiro; luta das mulheres por autonomia e liberdade; luta do movimento por moradia que não foge da briga com a especulação imobiliária, sabendo todos os riscos que tal luta pode trazer; luta dos movimentos do campo por terra, trabalho e uma agricultura livre de transgênicos, que promova a vida e dignidade dos povos do campo; luta dos povos originários em defesa de suas terras; luta dos migrantes por acolhida e respeito, reafirmando que “migrar é um direito e tráfico humano um crime”; luta pelo resgate da memória de nossos mortos e mortas que a história dos poderosos insiste em esquecer; mas, com um carinho muito especial, estava comigo a luta dass crianças e adolescentes do Brasil, ameaçados por um Congresso Golpista que visa reduzir a maioridade penal. Lembrei dos adolescentes com quem já trabalhei, dos adolescentes e jovens que morreram, vítimas de um país que mata seus jovens ao invés de lhes promover um futuro. Lembrei de um adolescente amigo que, quando falei que iria para este encontro, me disse “Mari, lembra da gente quando estiver lá”. Eu lembrei, assim como todo o grupo que gritava “Não, não, não à redução”. O mundo inteiro nos escutou enquanto clamávamos. O mundo inteiro escutou os gritos da juventude do Brasil que está sendo ameaçada por um grupo de pessoas que quer matá-la.

Francisco falou e nos emocionou. O objetivo não é reproduzir o seu fantástico discurso – que deveria ser lido e colocado nos altares de todas as igrejas católicas do mundo – porque sinto não ter compreensão suficiente para dizer o que realmente significou toda sua fala naquele momento tão simbólico. Todavia é preciso mencionar o quanto sua fala trouxe esperança rebelde e certeza que precisamos continuar nosso trabalho.

Seu pedido de perdão aos povos originários foi mais que mero protocolo. Seu pedido de perdão não foi “caridade cristã”, mas solidariedade de quem acredita que é Justiça restituir aos povos o que lhes é de direito [2].

Todavia, cabe destacar um trecho do seu discurso, que veio a nós todos/todas que queremos um mundo diferente:

Vós sois semeadores de mudança. Aqui, na Bolívia, ouvi uma frase de que gosto muito: «processo de mudança». A mudança concebida, não como algo que um dia chegará porque se impôs esta ou aquela opção política ou porque se estabeleceu esta ou aquela estrutura social. Sabemos, amargamente, que uma mudança de estruturas, que não seja acompanhada por uma conversão sincera das atitudes e do coração, acaba a longo ou curto prazo por burocratizar-se, corromper-se e sucumbir. É preciso mudar o coração. Por isso gosto tanto da imagem do processo, onde a paixão por semear, por regar serenamente o que outros verão florescer, substitui a ansiedade de ocupar todos os espaços de poder disponíveis e de ver resultados imediatos. A opção é a de gerar processos e não a de ocupar espaços.

Precisamos nos desafiar para além da luta contra o capitalismo selvagem que deixa os camponeses sem terra, as famílias sem teto e os/as trabalhadores/trabalhadoras sem direitos. É preciso construir uma nova forma de relacionamento entre seres humanos. Não queremos uma nova forma de dominação e exploração da vida. Precisamos construir relacionamentos baseados na solidariedade e no respeito, inclusive, com as futuras gerações, pensando que o cuidado com a casa comum, que envolve o cuidado com os/as outros/outras é missão de todas as pessoas. Somente assim faremos o que os movimentos sociais chamam de outro mundo possível, e o que a Igreja profetiza como Reino de Deus.

Construir novas relações é também romper com estruturas que há muito estão consolidadas. E talvez este seja o nosso grande desafio! Francisco não nos convida a olhar para as estruturas eclesiais – que em muitos lugares estão viciadas e servindo aos poderosos deste mundo, Francisco nos convida a ver e viver a proposta do Evangelho, que promove vida para todas e todos. E este é o maior desafio que os/as cristãos/cristãs vivem num mundo marcado por tantas ideologias que promovem ganância, egoísmo e religiões de mercado.

Na nossa mala, para além dos símbolos trocados e das lembranças materializadas, retornou também muita “fé revolucionária” (termo usado por Francisco durante sua fala), esperança resistente e amor-compromisso, que constrói solidariedade para sair da abstração das ideias sonhadas nestes dias.

“Outro mundo é possível, vamos fazer”, como cantam os grupos da Pastoral da Juventude! Há muito trabalho pela frente, certamente, mas não estamos sós. Conosco estão todos os sonhos do mundo. Existimos. Resistimos. Vivemos.


[1] O Zapatismo é um movimento nascido em Chiapas, no sul do México. Seu nome é uma homenagem ao revolucionário Emiliano Zapata (1879-1919), que liderou uma luta por reforma agrária no país no início do século XX. Em 1º de janeiro de 1994, o Exército Zapatista de Libertação Nacional ocupou as prefeituras de diversas cidades na região de Chiapas e ficou conhecido em todo o mundo. Os três alicerces da luta zapatista são: liberdade, justiça e democracia.

[2] Sobre caridade, o próprio Francisco afirmou, no mesmo discurso “a justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Para os cristãos, o encargo é ainda mais forte: é um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres e às pessoas o que lhes pertence”.

No related posts.